Você conhece esses desenhos?
Os desenhos clássicos da Disney, Warner, Hanna e Barbera e MGM persistem na programação televisiva há muito tempo, que o diga o octogenário Mickey. Mas, por trás desses desenhos quase sempre há uma história sombria ou confusa, que nem sempre se traduz em moralismo e bom exemplo para as crianças. É fato que a maioria deles tem violência excessiva, seja por quedas, desrespeito a outros personagens ou agressão física mesmo. Basta assistir o famoso Pernalonga para ver uma sucessão de tiros disparados por um caçador, muitas vezes no seu próprio rosto. Além disso, em alguns episódios, muitos personagens bebem e fumam em momentos de êxtase, criando a relação do ato com o bem estar do momento.
Mas é claro que tudo isso é transformado em sátira e torna-se cômico, já que os personagens são notoriamente imortais (mesmo). Muitas vezes, nos perguntamos de onde vem o hábito extremamente desagradável de rir quando alguém cai perto de nós, a resposta pode estar nos desenhos, que nos ensinaram a rir quando isso acontece. Claro que isso não é motivo para condenar os desenhos por muitas das atrocidades que cometemos no dia-a-dia. Eu adoro desenhos e tenho a impressão de que vou continuar a assisti-los por toda a vida, pois trazem um mundo irreal, fantasioso, que nos fornece um escape aos entraves do mundo real. É uma pena que muitas vezes acabemos tratando pessoas no nosso entorno da mesma maneira exibida na telinha ou adquirindo hábitos tão impróprios quanto esse.

No decorrer do tempo, alguns personagens passaram de baderneiros a politicamente corretos, novamente o caso do Mickey (Mickey Mouse), que no início de carreira, em 1918, fumava, bebia e chutava o traseiro de toda sorte de animais. Em 1930 os seus produtores resolveram mudar o comportamento do símbolo da Disney, tornando-o politicamente correto. Assim, para compensar a perda da sua essência cômica, surgiram os seus coadjuvantes: Pluto, Donald e Pateta.

A grande maioria, porém, não teve destino semelhante. O Pica-Pau (do original de Mel Blanc, The Woody, 1957) é famoso por ser um malandro no sentido estrito, sempre acaba surrando seus adversários. Além de roubar comida dos outros, trapaceia todos para conseguir o que quer e não demonstra nenhum remorso, já que ri dos fracos e oprimidos. Houve uma época em que foi alvo de críticas e censura nos Estados Unidos, mas sua índole prevaleceu. O Pernalonga (Bugs Bunny), criado em 1938 por Walter Lantz também se vale de mil disfarces e trapaças para enganar o Gaguinho, Patolino e outros personagens do Looney Tunes.

Não se engane com a aparente fragilidade e inocência do perverso Piu-Piu (do original de Bob Clampett, Tweety, 1942). Em sua gaiola sempre acaba provocando os instintos de Frajola (do original de Fritz Freleng , The Sylvester, 1945), que sempre acaba por se machucar severamente, seja por obra do buldog Hector ou da Vovó. É interessante ressaltar que até 1947, os dois personagens tinham cada um o seu espetáculo, quando então contracenaram juntos, o que deu origem à toda essa história de brigas. Ambos eram dublados por Mel Blanc (o homem das mil vozes), que também fazia as vozes do Pica-Pau e Coiote.

Quando o assunto é briga de longa data também não se pensa em outros senão Tom e Jerry (do original de Hanna e Barbera, Tom & Jerry, 1940), comumente o ratinho esperto acaba por deixar o Tom na pior, muitas vezes com ajuda do buldog Spike, que acaba surrando o coitado. Raramente os episódios de Tom e Jerry terminam em amizade entre os dois bichanos.
Considere ainda a exploração comercial que resulta da exibição desses episódios, ou até mesmo como as grandes indústrias manipulam não somente a massa, mas o governo também. Tome-se como exemplo que a "Lei do Direito Autoral" protegia uma criação por 56 anos após a sua criação, quando então caía em domínio público. Isso é claro, até que o Mickey completou seus 56 anos e houve uma pressão sobre o governo americano para a ampliação do prazo, o que certamente foi deferido. Hoje, a Lei estabelece que a obra seja de domínio público 70 anos após a morte do autor.
Ao que parece, a violência e a discórdia são parceiras eternas do ser humano. Apesar do grande avanço obtido com o decorrer da história da civilização, todos ainda conservamos aspectos de agressividade e combate encontrados no homem da Idade Média, por exemplo. A grande diferença é que agora, na maioria de nós, ela se traduz num mundo fantasioso, onde podemos massacrar nossos inimigos, e ainda por cima tripudiar sobre eles sem ter de responder aos nossos semelhantes por isso.
Criado a partir de matéria de O Estado de São Paulo, edição de 23/11/2008.





